As alterações climáticas são um tópico assim tão urgente? Sim.

Climate Change

Serão as alterações climáticas um tópico tão urgente? A fome mundial não está resolvida, há pessoas deslocadas, as epidemias matam — e muito, especialmente em países sem redes de saneamento ou hospitais dignos do século XXI. Podemos falar em alterações climáticas quando, no Gana, há hospitais que sem geradores não têm electricidade?

Credit to L.W. Unplash

Foram estes os argumentos de um padre respeitável numa discussão que tivemos, noite dentro. Respeitável não por ele ser padre, mas pela nossa amizade e por conhecer o seu caminho; feito de missões humanitárias em Madagáscar, Quénia, e cenários da personagem de Javier Bardem no filme A Última Fronteira. Perante tamanho sofrimento, porquê o sururu verde? Na altura, o tema não tinha passado para os discursos papais. Estávamos na era pré-Papa Francisco mas o quinto relatório do Painel Internacional para as Alterações Climáticas acabara de compilar consensos científicos, atribuindo à actividade humana o aumento da temperatura global desde a Revolução Industrial. Em paralelo, a Agência Internacional de Energia mostrou que mil milhões de pessoas ainda não têm acesso à electricidade e três mil milhões cozinham rudimentarmente, implicando graves problemas de saúde. Nos últimos anos, a humanidade assistiu à maior crise de refugiados desde a Segunda Guerra Mundial e 2016 foi o ano que mais matou migrantes desesperados. Não é só o padre: em My World, das Nações Unidas, as alterações climáticas aparecem no fim da tabela das angústias humanas. Quer-se educação, cuidados de saúde, oportunidades de trabalho…

A resposta, a solução, é desistir da dicotomia do assunto mesmo que as conversas de café sobre as alterações climáticas não sejam fáceis. Os processos climáticos são complexos: os oceanos absorvem calor adicional, devolvendo para a atmosfera quantidades de energia brutais que alimentam furacões cada vez mais destrutivos. Um cientista climático almeja que se diga: é uma questão de sobrevivência. Mas não há como escapar: enquanto humanos, preocupamo-nos com o imediato e perigos palpáveis. O aumento global da temperatura é um inimigo discreto e a pior parte está ainda por vir. Será?

Tuvalu é um paraíso insular, pouco acima do nível do mar. O país pede que as alterações climáticas sejam razão para asilo. E mesmo que se se tapassem chaminés em uníssono, o mar continuará a subir — tal significa que os refugiados climáticos não são um “se” mas um “quando”. Depois, o clima mais quente é propício à reprodução de mosquitos, favorecendo a transmissão de doenças como a malária. Chegará ela a Portugal na força de um Verão? Actualmente, por ano, milhões de pessoas são deslocadas devido a eventos extremos do clima. Continuando as emissões, teremos furacões dez vezes mais frequentes. E se pensarmos que os países desenvolvidos estão imunes a estes problemas, na Austrália, a Seca do Milénio foi exacerbada pelas alterações climáticas.

As alterações climáticas fazem parte do problema da fome, da segurança mundial e da economia, o que implica serem um problema humanitário. Combater problemas humanitários sem considerar o clima não vai complicar processos, vai impedir soluções.

Originalmente publicado para o Público P3.

 

Marte, a nova utopia | P3

Climate Change

Elon Musk (na foto) é o homem do momento. Em Portugal, todos anseiam pela chegada deste D. Sebastião montado no seu Tesla. Ao mesmo tempo, a sua SpaceX promete chegar a Marte até 2022. Será Marte uma nova utopia?

Embora a palavra utopia tenha surgido apenas em 1516 com a república insular de Thomas More, as sociedades ideais têm sido um sonho constante da Humanidade. Por exemplo, Platão imaginou uma Grécia governada por filósofos onde o conhecimento era a base da democracia. Obras mais recentes abordam também o tema da distopia, a transformação destes mundos perfeitos no seu oposto como 1984, de George Orwell, ou Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley. Em ambos, as sociedades tornam-se disfuncionais porque removeram alguma componente humana fundamental. Muitos filmes recentes têm retratado variadas distopias — as político-sociais, como The Hunger Games ou tecnológicas como Transcendance.

Mas o que têm estas utopias, e suas distopias, a ver com a vida real? Tudo. Pensemos em alguns sistemas políticos do século XXI, mas também na tecnologia, quando exerce domínio sobre a Natureza. O homo sapiens sapiens, a subespécie que, na nossa taxonomia narcisística, “sabe que sabe” mudou radicalmente o modo como vive e conseguiu ser a única a duplicar a sua própria esperança de vida. E foi um ápice, lembrando que da agricultura à bomba atómica passaram cerca de 12 000 anos. No entanto, especialmente no passado recente, muitas das nossas fantásticas descobertas revelaram algum aspeto destrutivo. Essas descobertas, pertencentes ao projeto prometeico da modernidade, fazem lembrar o castigo de Prometeu quando roubou o fogo a Zeus para o dar aos humanos. Os exemplos são muitos; a revolução industrial trouxe o fim de trabalhos pesados, mas as fábricas tornaram-se novas prisões. A divisão do átomo trouxe a promessa da energia nuclear; cidades inteiras que se iluminam com alguns gramas de urânio! Aconteceu Chernobyl e a utopia ainda vive em Almaraz. Nos anos 60 acreditava-se que os computadores e a automação trariam as 20 horas de trabalho por semana. Ficaríamos com mais tempo para os amigos e ver as crianças crescer. Agora, não só passamos as mesmas horas no escritório como chegamos a casa e lá estão eles, mais computadores e trabalho, a jantar à nossa mesa, roubando não só o tempo como os filhos.

PÚBLICO -

Descoberta de água em Marte suscitou maior curiosidade que Climate Change durante a COP de Paris

 

Na ida a Marte, o problema é a ansiedade. A exploração espacial é responsável por inúmeros avanços da engenharia à medicina e não deve parar. Mas o dinheiro não chega para tudo. Investir em Marte, para lá chegar mais cedo, significa desinvestir na observação da Terra, uma actividade que depende da construção de satélites para estudar os processos climáticos na Terra. A Agência Espacial Europeia tem investido, e bem, a maior fatia do seu orçamento nesta área. No entanto, com a chegada dos republicanos à Casa Branca talvez o rumo da NASA mude. Enquanto Ted Cruz insistia na utopia marciana, Charles Bolden, ex-diretor da agência espacial, teve de defender a importância de se estudar as alterações climáticas, “porque não iremos a lado nenhum se o Cabo Canaveral ficar debaixo de água”. 

Originalmente publicado para o Público P3:

http://p3.publico.pt/actualidade/ciencia/23987/marte-nova-utopia#.WVtmT0LSaWw.gmail