O Rio que deveria existir

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No rio de mágoas lavadas, as pessoas costumam acorrer em lamúrios e prantos. Especialmente em ocasião de guerras ou doenças é costume ver centenas de pessoas, mulheres, na maioria, a lavarem seus prantos no pranto da montanha. Dona Dores é uma dessas mulheres. Na madrugada de uma noite fria de inverno foi quando o telegrama chegou, houve uma premonição de Dona Dores para o sucedido. Levantou-se de rompante antes mesmo de a campainha tocar. Depois de percorrer a casa escura de corredores internos, definiu um vulto no vitral da porta de entrada. Por detrás do vulto o azul escuro do crepúsculo atravessara as várias cores do vitral com o rigor de um pano de luz estranhamente colorido em redor da mancha negra. Abriu a porta.

– Telegrama, minha senhora.

Deteve-se até que os passos do carteiro se deixaram de ouvir. Rasgou o envelope que, atirado ao chão, caiu mais lento que sua postura. Dona Dores ficou prostrada no alpendre até que o vizinho a veio chamar.

– Senhora? Que se passou?

A mãe, prestes a devolver à terra do seu filho perdido, acorreu ao rio. Mergulhou bem fundo e abriu os olhos tentando ver a fronteira onde o leito acama a água. Nessa fronteira ouviu gritos e cantos, como se fosse um clamor pacífico, universal.

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